sábado, 25 de janeiro de 2014

As Brumas de Avalon: o dissipar-se do salário nas mãos de quem trabalha

Jean Paulo Pereira de Menezes
Em 1979, Marion Zimmer Bradley publicou nos Estados Unidos “The Mists of Avalon”. Trata-se de uma leitura da lenda do rei Artur onde as mulheres são as personagens centrais de toda trama. Utilizo aqui esta história apenas como ponto de partida para problematizar as fantasias que se apresentam ao mundo do trabalhador, sobretudo em relação ao seu salário. Em alguns momentos farei referência a outros personagens fantásticos como o senhor Frodro, a partir da obra do inglês John Ronald Reuel Tolkien (The Lord of the Rings), escrita em trilogia a partir do ano de 1954. Passando pelo labirinto do rei Minos em Creta, referendarei a criatura fruto da ira de Poseidon. Mas a metáfora que mais nos interessa aqui e a das brumas de Bradley.
Brumas são aquelas pequenas nuvens que se formam, por exemplo, bem próximas ao espelho d’água em um lago ou mesmo nas paisagens em geral. Quando avistamos de longe as brumas podemos até sermos convencidos de que se trata de algo denso e que ao nos entrarmos entre as brumas não seremos capazes de visualizar nada além daquela branca nuvem. Mas ao aproximarmo-nos, ou mesmo diante de um pequeno raio de luz, as brumas se dissipam rapidamente, como se nunca tivessem existido.
Algo parecido com as brumas é o salário. Todos os meses a classe trabalhadora fixa o olhar no calendário, procurando avistar o dia do pagamento. Identifica-se a sensação de nunca chegar o dia do vencimento, até mesmo parece que os dias que o antecede se comparam as brumas, em uma falsa densidade, pois representa algo distante, que nos separa… Como se não fosse possível penetrar os dias restantes.
Passam semanas (os trabalhadores) a planejarem como gastarão o salário… Muita criatividade se desenvolve nete percurso de labor e espera. Organiza-se o pagamento das contas e vislumbra-se a possibilidade de novas compras.  Mas para isso, para se realizar no consumo, é necessário muita espera. Há que se produzir muito, mesmo que o trabalhador não se identifique no processo produtivo, pois é diante deste processo estranhado que ele ira receber uma quantidade de dinheiro e logo ao recebê-lo, buscará a sua realização através do consumo primário do salário e de outras coisas que lhes forem úteis.
E aqui é o ponto. Quando o grande dia é chegado, os trabalhadores (ao menos a maioria deles) pegam os seus salários e como em um passe de mágica (mas não é) tudo que parecia significativo, toda aquela quantidade de valor… Se dissipa como as brumas de Avalon (…), parece desaparecer, com ou sem um feixe de luz.
Como se trata de uma experiência vivenciada todos os meses de sua vida, o trabalhador passa a se comportar como o Frodo de Tolkien diante do anel. Ele fica enfeitiçado com o poder do anel (agora aqui como salário), pois sabe que ele possui um tipo de poder (poder de compra)… Sabe que pode ser usado, mas nosso trabalhador fica plenamente enfeitiçado justamente por saber isso… Sabe que ao utilizar do poder de compra do salário o mesmo desaparecerá… Mas sabe que se não o fizer, o mesmo permanecerá ali, bem diante dos seus olhos, mas também não se realizará.
Fica “magicamente” preso aquela quantidade de dinheiro que poderá ou não ser realizado no mercado. Um impasse que só será resolvido com a tomada de uma decisão pelo trabalhador. Durante alguns dias ele resistirá ao anel, assim como o resistiu o senhor Frodo. Mas o tempo será impiedoso… A vontade de se realizar diante do poder (mesmo sendo pequeno no caso no salário) crescerá a cada dia que se passar e a tentação de buscar a realização será ainda maior.
Para fugir deste feitiço e não ser plenamente encantado acabando com o poder de seu salário, o trabalhador apenas o utilizará para o que for estritamente vital, para ele e sua família (quanto possuir uma) (…). Com tristeza nos olhos, ele vai pagar as contas: primeiro, as contas de água e luz; segundo, o aluguel (…) e aqui a dor é tremenda! É como se o anel fosse cair de uma montanha onde jamais o resgataria (…). Paga com parte do salário o maldito aluguel de todos os meses e se sente como se algo do seu corpo tivesse sido arrancado neste momento, com se parte do seu esforço fosse lançado ao abismo.
Depois deste momento trágico a tristeza e a dor continuará mais implacável, pois há que se comer para continuar a esperar o mês passar e o novo salário chegar.
Para gastar o mínimo possível ele vai escolher o que comer… E quando pensa em ir comprar as coisas (alimentos) importantes, desgraçadamente ele se lembra que ainda há que se pagar o transporte (passes) coletivo (péssimo) para continuar trabalhando durante o mês… Fica desolado, de cabeça-baixa e revoltado. Mas há que se pagar as contas (…).
Quando tudo parecia estar organizado, ai sim… Sai e  vai ao supermercado… Passando entre as prateleiras, visualiza a sua frente uma pia de mandiocas e se lembra da deliciosa sopa que tanto desejou fazer durante o mês… Agora era o momento… Pegou logo quatro grandes pedaços da raiz… Colocou-as no carrinho e soltou o maior sorriso do mês! Finalmente estava se realizando com o salário… Justiça estava sendo feita… Desfilava com o carrinho pelos corredores e só olhava para as mandiocas… Realizava-se nelas… Era até capaz de antecipar o processo de consumo mais concreto… Sentia até o gostinho saboroso da sopa que consumiria em algumas horas.
Mas o momento da realização através do consumo só havia se iniciado. Nosso trabalhador continua a andar pelo supermercado e diante de tantas mercadorias para serem consumidas soube escolher em menos de quarenta minutos todas aquelas que ele poderia adquirir… Comprou uma caixinha de tempero artificial, alguns saquinhos de suco na promoção e fez a feirinha como de costume. Quando estava indo para o caixa, passou pelo corredor dos doces… Ficou encantado com um pacote todo colorido de uma bolacha de marca famosa… Sua boca salivava… Resolveu pegar outro caminho para chegar até o caixa, assim se afastaria de tamanha tentação… E quando se meteu em outro corredor quase morreu de vontade de levar umas latinhas de atum… Mas isso era impossível… A calculadora no bolso, assim como o Minotauro do labirinto, já forçava a sua saída daquele lugar que prenunciava o seu fim… Já tinha atingido o limite! Não dava para comprar absolutamente mais nada, pois já estava levando os saquinhos de sucos que nem era para entrarem na lista de compras.
Resignado, o trabalhador abaixa a cabeça mais uma vez e continua olhando para o chão, sem conseguir ver o que existia nas prateleiras satânicas que o levava até o caixa. Quando percebia que estava chegando, levantou a cabeça e como se a maldição fosse real… Outras tentações ali mesmo no caixa!!! Ao lado da fila… Era como se as mercadorias fizessem cara de cachorrinho perdido… Como se falassem: “por favor… me vela… não me deixe aqui sozinha com estas pessoas estranhas”… Era um saquinho de marchimelo maldito, possuído, que lhe saltava aos olhos… Respirou fundo (…) e conseguiu passar reto, pois a calculadora já estava chifrando o bolso nestas alturas.
Passou pelo caixa… Pagou tudo rápido para sofrer menos… Mas foi em vão… Ao sair com algumas sacolas para o ponto de ônibus só conseguia pensar em uma coisa: o salário que se dissipava feito bruma.  Quase nada o restara, apenas alguns reais. Chegando em casa a alegria parecia revisitá-lo ao passo que retirava as coisinhas compradas da sacolinha para guardar… Que alegria (!): “minhas coisinhas vitais para viver e continuar trabalhando”. Finalmente fez a tão esperada sopa de mandioca… Comeu muito e foi dormir, pois no outro dia pulava pela manhã para continuar trabalhando. Infelizmente o sol raiou.  Levantou e foi logo confirmando oquantum de dinheiro ainda tinha.
A cada dia que passava, nosso trabalhador sentia a despedida das brumas e como era cada vez menor poder do seu anel. Lá pelo meio do mês a tristeza era total… Sem sopa… Sem K-suco… Quase sem nada para comer. Só lhe restava aguardar a formação de novas brumas para encontrarem-se mais uma vez… Neste dia o poder do anel se manifestaria novamente por um momento… e as brumas mais uma vez se dissipariam ao passo que o Minotauro o perseguiria novamente pelos corredores do supermercado.
E assim, de forma aberta, continuamos a escrever a vida, sem fantasias, onde o dissipar-se do salário nas mãos de quem trabalha é uma das sínteses de múltiplas determinações em nosso tempo presente de classes antagônicas.

Um comentário:

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  1. Claudio Pereira25 janeiro, 2014

    Wilson Leite, tenho dois comentários a fazer: 1) o que o Estado burguês chama de aumento salarial, na verdade é uma correção de perdas que se acumulam durante o ano (brumas); 2)onde os salários são supostamente melhores, a burguesia dá o troco elevando os preços às alturas. Isto é algo muito corriqueiro aqui em Parauapebas, município que hoje têm o maior PIB do Pará e está entre os vinte maiores do Brasil. O custo de vida, fruto de especulações diversas, suga o salário do trabalhador em poucos dias. Observo que os bancos daqui, até lá pelo dia 10 de cada mês são superlotados e após o dia vinte vê-se pouco ou nenhum movimento nos caixas eletrônicos. A malandragem, como é de práxis, sempre caça um bode expiatório pra justificar as mesmas mazelas de cidades com PIB muito inferior ao daqui. Outro dia os fiscais da prefeitura daqui estavam barrando e apreendendo caminhões carregados de tijolos mais baratos, vindos de cidades vizinhas. Aqui também é comum, o operariado ir encher o tanque do carro em cidades circunvizinhas, uma forma de economizar frente a um dos litros de combustível mais caros do país. Brumas, brumas...

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