sábado, 25 de janeiro de 2014

As Brumas de Avalon: o dissipar-se do salário nas mãos de quem trabalha

Jean Paulo Pereira de Menezes
Em 1979, Marion Zimmer Bradley publicou nos Estados Unidos “The Mists of Avalon”. Trata-se de uma leitura da lenda do rei Artur onde as mulheres são as personagens centrais de toda trama. Utilizo aqui esta história apenas como ponto de partida para problematizar as fantasias que se apresentam ao mundo do trabalhador, sobretudo em relação ao seu salário. Em alguns momentos farei referência a outros personagens fantásticos como o senhor Frodro, a partir da obra do inglês John Ronald Reuel Tolkien (The Lord of the Rings), escrita em trilogia a partir do ano de 1954. Passando pelo labirinto do rei Minos em Creta, referendarei a criatura fruto da ira de Poseidon. Mas a metáfora que mais nos interessa aqui e a das brumas de Bradley.
Brumas são aquelas pequenas nuvens que se formam, por exemplo, bem próximas ao espelho d’água em um lago ou mesmo nas paisagens em geral. Quando avistamos de longe as brumas podemos até sermos convencidos de que se trata de algo denso e que ao nos entrarmos entre as brumas não seremos capazes de visualizar nada além daquela branca nuvem. Mas ao aproximarmo-nos, ou mesmo diante de um pequeno raio de luz, as brumas se dissipam rapidamente, como se nunca tivessem existido.
Algo parecido com as brumas é o salário. Todos os meses a classe trabalhadora fixa o olhar no calendário, procurando avistar o dia do pagamento. Identifica-se a sensação de nunca chegar o dia do vencimento, até mesmo parece que os dias que o antecede se comparam as brumas, em uma falsa densidade, pois representa algo distante, que nos separa… Como se não fosse possível penetrar os dias restantes.
Passam semanas (os trabalhadores) a planejarem como gastarão o salário… Muita criatividade se desenvolve nete percurso de labor e espera. Organiza-se o pagamento das contas e vislumbra-se a possibilidade de novas compras.  Mas para isso, para se realizar no consumo, é necessário muita espera. Há que se produzir muito, mesmo que o trabalhador não se identifique no processo produtivo, pois é diante deste processo estranhado que ele ira receber uma quantidade de dinheiro e logo ao recebê-lo, buscará a sua realização através do consumo primário do salário e de outras coisas que lhes forem úteis.
E aqui é o ponto. Quando o grande dia é chegado, os trabalhadores (ao menos a maioria deles) pegam os seus salários e como em um passe de mágica (mas não é) tudo que parecia significativo, toda aquela quantidade de valor… Se dissipa como as brumas de Avalon (…), parece desaparecer, com ou sem um feixe de luz.
Como se trata de uma experiência vivenciada todos os meses de sua vida, o trabalhador passa a se comportar como o Frodo de Tolkien diante do anel. Ele fica enfeitiçado com o poder do anel (agora aqui como salário), pois sabe que ele possui um tipo de poder (poder de compra)… Sabe que pode ser usado, mas nosso trabalhador fica plenamente enfeitiçado justamente por saber isso… Sabe que ao utilizar do poder de compra do salário o mesmo desaparecerá… Mas sabe que se não o fizer, o mesmo permanecerá ali, bem diante dos seus olhos, mas também não se realizará.
Fica “magicamente” preso aquela quantidade de dinheiro que poderá ou não ser realizado no mercado. Um impasse que só será resolvido com a tomada de uma decisão pelo trabalhador. Durante alguns dias ele resistirá ao anel, assim como o resistiu o senhor Frodo. Mas o tempo será impiedoso… A vontade de se realizar diante do poder (mesmo sendo pequeno no caso no salário) crescerá a cada dia que se passar e a tentação de buscar a realização será ainda maior.
Para fugir deste feitiço e não ser plenamente encantado acabando com o poder de seu salário, o trabalhador apenas o utilizará para o que for estritamente vital, para ele e sua família (quanto possuir uma) (…). Com tristeza nos olhos, ele vai pagar as contas: primeiro, as contas de água e luz; segundo, o aluguel (…) e aqui a dor é tremenda! É como se o anel fosse cair de uma montanha onde jamais o resgataria (…). Paga com parte do salário o maldito aluguel de todos os meses e se sente como se algo do seu corpo tivesse sido arrancado neste momento, com se parte do seu esforço fosse lançado ao abismo.
Depois deste momento trágico a tristeza e a dor continuará mais implacável, pois há que se comer para continuar a esperar o mês passar e o novo salário chegar.
Para gastar o mínimo possível ele vai escolher o que comer… E quando pensa em ir comprar as coisas (alimentos) importantes, desgraçadamente ele se lembra que ainda há que se pagar o transporte (passes) coletivo (péssimo) para continuar trabalhando durante o mês… Fica desolado, de cabeça-baixa e revoltado. Mas há que se pagar as contas (…).
Quando tudo parecia estar organizado, ai sim… Sai e  vai ao supermercado… Passando entre as prateleiras, visualiza a sua frente uma pia de mandiocas e se lembra da deliciosa sopa que tanto desejou fazer durante o mês… Agora era o momento… Pegou logo quatro grandes pedaços da raiz… Colocou-as no carrinho e soltou o maior sorriso do mês! Finalmente estava se realizando com o salário… Justiça estava sendo feita… Desfilava com o carrinho pelos corredores e só olhava para as mandiocas… Realizava-se nelas… Era até capaz de antecipar o processo de consumo mais concreto… Sentia até o gostinho saboroso da sopa que consumiria em algumas horas.
Mas o momento da realização através do consumo só havia se iniciado. Nosso trabalhador continua a andar pelo supermercado e diante de tantas mercadorias para serem consumidas soube escolher em menos de quarenta minutos todas aquelas que ele poderia adquirir… Comprou uma caixinha de tempero artificial, alguns saquinhos de suco na promoção e fez a feirinha como de costume. Quando estava indo para o caixa, passou pelo corredor dos doces… Ficou encantado com um pacote todo colorido de uma bolacha de marca famosa… Sua boca salivava… Resolveu pegar outro caminho para chegar até o caixa, assim se afastaria de tamanha tentação… E quando se meteu em outro corredor quase morreu de vontade de levar umas latinhas de atum… Mas isso era impossível… A calculadora no bolso, assim como o Minotauro do labirinto, já forçava a sua saída daquele lugar que prenunciava o seu fim… Já tinha atingido o limite! Não dava para comprar absolutamente mais nada, pois já estava levando os saquinhos de sucos que nem era para entrarem na lista de compras.
Resignado, o trabalhador abaixa a cabeça mais uma vez e continua olhando para o chão, sem conseguir ver o que existia nas prateleiras satânicas que o levava até o caixa. Quando percebia que estava chegando, levantou a cabeça e como se a maldição fosse real… Outras tentações ali mesmo no caixa!!! Ao lado da fila… Era como se as mercadorias fizessem cara de cachorrinho perdido… Como se falassem: “por favor… me vela… não me deixe aqui sozinha com estas pessoas estranhas”… Era um saquinho de marchimelo maldito, possuído, que lhe saltava aos olhos… Respirou fundo (…) e conseguiu passar reto, pois a calculadora já estava chifrando o bolso nestas alturas.
Passou pelo caixa… Pagou tudo rápido para sofrer menos… Mas foi em vão… Ao sair com algumas sacolas para o ponto de ônibus só conseguia pensar em uma coisa: o salário que se dissipava feito bruma.  Quase nada o restara, apenas alguns reais. Chegando em casa a alegria parecia revisitá-lo ao passo que retirava as coisinhas compradas da sacolinha para guardar… Que alegria (!): “minhas coisinhas vitais para viver e continuar trabalhando”. Finalmente fez a tão esperada sopa de mandioca… Comeu muito e foi dormir, pois no outro dia pulava pela manhã para continuar trabalhando. Infelizmente o sol raiou.  Levantou e foi logo confirmando oquantum de dinheiro ainda tinha.
A cada dia que passava, nosso trabalhador sentia a despedida das brumas e como era cada vez menor poder do seu anel. Lá pelo meio do mês a tristeza era total… Sem sopa… Sem K-suco… Quase sem nada para comer. Só lhe restava aguardar a formação de novas brumas para encontrarem-se mais uma vez… Neste dia o poder do anel se manifestaria novamente por um momento… e as brumas mais uma vez se dissipariam ao passo que o Minotauro o perseguiria novamente pelos corredores do supermercado.
E assim, de forma aberta, continuamos a escrever a vida, sem fantasias, onde o dissipar-se do salário nas mãos de quem trabalha é uma das sínteses de múltiplas determinações em nosso tempo presente de classes antagônicas.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Concentração de renda: essência do capitalismo

     Por Claudio Pereira

O senso comum vigente na ordem socioeconômica é de que todos os problemas do sistema derivam dos políticos corruptos, que se existissem políticos honestos, tudo estaria resolvido. Não que eu queira defender político, seja de que índole for, mas apontar que os mesmo servem de bode expiatório para as mazelas do sistema. Retire o político corrupto do caminho e tudo estará resolvido! Será? Parte da população crê no discurso falacioso e espera por um político honesto, outra já se entregou e relegou aos céus a solução do problema. O trabalhador é um descrente na sua própria força de transformação da desordem socioeconômica em que vive. Os intelectuais do capital estão a plantar ideias cotidianamente na cabeça do pobre operário que confuso não sabe pra onde ir e em quem acreditar.
As pessoas por ignorância, por cumplicidade, por preguiça não percebem que o sistema econômico é o real problema e não decifram o ninho de cobra do capital. O que dizer de um “artista” medíocre fabricado pela indústria do “entretenimento” que se desloca lá do Centro-Sul aqui para o Norte e em uma hora e meia recebe 200 ou 300 mil reais para realizar um show medíocre no qual quem paga o ingresso em sua maioria são trabalhadores assalariados que dão duro dá madrugada ao pôr do sol? Para onde vai o dinheiro? Isto é uma forma não tão sofisticada de se apropriar da renda dos trabalhadores. Fato não tão diferente ocorre no futebol, onde bons jogadores enriquecem a si, mas acima de tudo grandes grupos econômicos ou empresários obesos donos de seus passes são os que realmente faturam, já que ficam com a parcela maior das transações. Um pouco diferente, mas dentro do esquema de concentração de renda está a apropriação de invenções alheias. O mineiro Nélio José Nicolai, para quem não conhece, é o inventor do BINA, sistema que permite identificar a origem das ligações do seu aparelho telefônico. Grandes transnacionais do setor de telecomunicações se apropriaram do seu invento, faturaram e ainda faturam bilhões e há décadas que o mesmo luta para ter seu direito de patente e autoral reconhecidos. É assim, quando não encontra um “artista” ou desportista pra faturar em cima do povo, o capitalista se apropria na força, na demagogia, na pilantropia.    O que tem de empresários do setor educacional faturando com o PROUNI. Muitos vendem sonho e entregam pesadelos. É antagônico ver o MEC fechar faculdades que ele mesmo credenciou e financiou bolsas.
Antes que eu esqueça, está aberta a temporada 2014 do Big Hermano, aquele programa onde algumas pessoas “muito”politizadas são enclausuradas numa casa luxuosa, farreiam, e ainda concorrem a prêmios milionários e conta com uma grande audiência de milhões de trabalhadores que acordam cinco da manhã, pegam de quatro a seis conduções caras e desconfortáveis para ir e retornar do trabalho, que compram TV’s a prestação e ainda pagam uma conta de energia abusiva. Quem se estressará no final das contas? O fofoqueiro parasita ou o operário produtivo?

Se formos citar exemplos de esquemas de concentração de renda não vai faltar FIES, PROUNI, divida interna pública, copa, Lei Kandir etc., a principal meta deste ensaio é divulgar os absurdos no que tange o potencial de concentração de renda do capitalismo. A última bomba neste contexto foi vulgarizada em face de um levantamento feito pela organização de caridade *Oxfam que apontou que os 85 mil indivíduos mais ricos da terra tem renda igual a dos 3,5 bilhões mais pobres. Que 1% da população mundial é dona de 50% da riqueza produzida no planeta.

Não dá para trabalhadores desempregados ou assalariados disputar a propriedade privada com indivíduos que se divertem com os bilhões que multiplicam sem muito esforço, anualmente. O resultado desse absurdo se traduz na qualidade de vida da população cada vez mais estressada e endividada. Do outro lado, gastos supérfluos e programas de TV imbecilizantes simbolizam a desigualdade e concentração de renda.
Para encerrar faço duas observações: a primeira é sobre a Oxfam Internationalque é uma confederação de 13 organizações e mais de 3000 parceiros, que atua em mais de 100 países na busca de soluções para o problema da pobreza e da injustiça, através de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. Apesar da mesma divulgar dados sobre concentração de renda, acho seus métodos poucos significativos para derrubada da desigualdade vigente no mundo. A segunda é que para evitar um possível mal entendido, divulgarei um texto específico sobre o PROUNI, programa educacional que insere alunos de baixa renda em faculdades privadas, mas dentro da lógica de concentração burguesa.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Emprego assalariado: a cenoura do capitalismo

Trecho da  aula 6 que fala sobre amor organizado pelo projeto Cooper IHARA - Professor Clóvis de Barros Filho (prof. de filosofia). 


Assista vídeo completo clicando aqui: Cooper IHARA - Aula 06 - Amor

sábado, 18 de janeiro de 2014

DIZ OBAMA: NÃO VAMOS MAIS ESPIONAR NOSSOS ALIADOS

Ao ouvir que Obama afirmará que deixará de espionar os aliados, mas que continuará a fazê-lo com os inimigos - resta saber quem são seus aliados se eles [EUA] espionam até seus próprios cidadãos -, pois todos espionam.

Neste breve resumo buscaremos expor, de maneira simples, as principais ideias abordadas por Eduardo Jardim de Morais  no artigo com o tema “11 de setembro – O que a filosofia tem a dizer sobre isso?” publicado no caderno “O que nos faz pensar” nº 15, agosto de 2002, do departamento de filosofia da PUC-Rio.

Moraes observa que os fatos ocorridos no 11 de setembro – atentado às torres gêmeas nos EUA em 2001 – colocou em cheque os conceitos construídos até então sobre guerra. Destacando que o fato colocou analistas e comentadores da guerra em um “sentimento de desamparo das referencias conceituais”. Na tentativa de melhor explicar os acontecimentos ele recorre às bibliografias referenciando-se nas obras Sobre a Violência de Hannah Arendt, na tese Velocidade e Política de Paul Virgílio e, em Martin Heidegger em sua obra Ser e Tempo a fim de entender quais os conceitos melhor podem explicar essa nova forma de guerrear.

Para melhor entender o caminho traçado por Moraes iremos destacar os principais pontos de cada autor, que, para ele tem uma importância para entender esse novo estado de guerra e de violência que se apresenta de forma inédita:

Em Arendt, ao analisar o contexto da guerra fria – países divididos entre dois blocos: Capitalistas e Comunistas – em uma passagem ela já questionava que a demonstração do poder da violência e da riqueza de uma nação não se manteria como certeza da segurança do não-ataque de outras nações consideradas menos potentes ou economicamente subdesenvolvidas. Em outra citação feita por Moraes sobre a obra “Entre o Passado e o Futuro” Arendt fala que mesmo tendo fim do pensamento tradicional de determinar o poder da violência isso não significaria o abandono por completo desse conceito, pelo contrário “torna-se ainda mais tirânico à medida que a tradição perde sua força[...]”

O principal problema destacado por Morais ao identificar que o cenário de guerra contemporâneo pode ser considerado por duas perspectivas, é justamente a definição desses aspectos que surge a pergunta: Como caracterizar esta novidade? A caracterização dessa nova forma de guerra fica evidente por se caracterizar pela inexistência dos critérios espaciais tradicional, por conseguinte não se pode atribuir quem efetuou o ataque. Situação bem diferente da que se identificava o confronto que obedecia aos critérios espaciais resultando na divisão territorial em fronteias e regiões - Sul e Norte, etc.

No cenário da guerra fria Moraes destaca a tentativa de Hannah Arendit em descaracterizar o uso da violência - instrumentos bélicos - como um “[...]recurso não válido politicamente” posição também defendida por intelectuais como Sartre e militantes pacifistas. Defendendo que o poder parte do âmbito político, necessariamente não-instrumental. A exemplo do que ocorreu após 1945, com a corrida armamentista das superpotências. Mesmo após a perda da eficácia do uso dessas armas pois “[...]se alguém “vence” é o fim para ambos” e a conseqüência era a possibilidade de destruição mútua. Transformada numa guerra de dissuasão, onde o desenvolvimento de armas e o fato de ter posse desse instrumental garantia o não ataque, pois seria o fim para ambos. Invertendo assim a definição tradicional de Clausewitz, passando a paz no contexto da guerra fria seria a continuação da guerra por outros meios, onde as ações políticas são marcadas pelo principio da dissuasão.

Para Moreas, as caracterizações feitas por Arendt ainda não respondiam o que ocorreu com o 11 de setembro e apresenta a analise feita por Paul Virílio de outro momento histórico. A tese apresentada por Virílio defendia que a velocidade da técnica sempre envolveu uma retração do território. A revolução dos transportes de massa no século XIX (ferroviário, rodoviário, marítimos) até a substituição pelos aeroportos no século XX. E, no século XX vem a segunda revolução, a das transmissões ou das telecomunicações, derrubando significativamente as barreiras espaciais e geográficas, as viagens não se faria mais via aeroporto mais sim por teleporto.

Virilio desenvolve sua história das guerras em etapas: primeiro as guerras de destruição, segundo a de dissuasão – que é a não guerra – ou guerra pura por se contentar em produzir os meios que não utilizará, evoluindo então para a guerra da comunicação, ou também chamada de guerra de controle. Nessa analise o contexto dos blocos identificados na guerra fria não existem mais, tornando a guerra novamente possível. Uma nova guerra, a que produz armas de controle com o objetivo de paralisar, supervisionar as ações do inimigo, exemplo dado por Virílio seria a Guerra do Golfo. Com o desenvolvimento das tecnologias de telecomunicações esse instrumental passou a estar ao alcance de todos, criando uma situação de um “desequilíbrio do terror”. Não basta mais ter as armas, pois a principal arma atual é a informação, definida por Virílio uma mudança de “guerra substancial” por uma “guerra acidental”, e, principalmente sem um ambiente territorializado que levou as grandes potencias a buscarem um novo campo de batalha, não localizado espacialmente, convivendo com “um estado de guerra difuso”. Quebrando assim o paradigma de que guerra pressupõem a implementação de novos armamentos ou tecnologias mas do melhor aproveitamento das informações acerca do inimigo, muito diferente da associação apontada em Sobre a Violência de Arendt onde a demonstração do poder tinha como parceiros as industrias para a criação de novos tecnologias armamentistas, bem caracterizado pelo cenário da guerra fria com suas bombas atômicas. Virilio argumentava que a história das guerras pode ser contatas como uma historia do desenvolvimento de armas: de obstrução, de destruição, de dissuasão até as que são usadas agora, as de comunicação, em especial a informação colhidas através de espionagem ou interceptação principalmente através da internet (rede mundial de computadores). 

Moraes recorrendo a Heidegger apresenta a discussão entre os sentimentos de medo e angustia diante da indefinição que para ele pode dar respostas ao que acontece no momento atual no sentido de que não se pode definir os adversários de uma nova guerra e como se daria a investida de ambos. Essa perda de substancialidade ao real se caracteriza mais na angustia de que ao medo. Nesse estado de angustia os homens estariam diante do nada, ou seja, não se viam no mundo e os medos concretos dos quais tinham referências. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

DEU NA MÍDIA. NÃO BASTA CONHECER AS LEIS É PRECISO SEGUI-LAS

Veículo da Setran ocupa rampa e prejudica a mobilidade

Veículo da Secretaria de Trânsito estacionado em frente a uma rampa de acesso
13/01/2014 18:37:59 - Welbert Queiroz

E quando os agentes fiscalizadores praticam a infração? Quem os fiscaliza? Esse é o questionamento de Evandro Fernandes que recentemente divulgou a imagem de um veículo da Secretaria Municipal de Trânsito cometendo a infração de estacionar em uma rampa de acesso em frente a um hospital em Imperatriz.

O internauta que divulgou a imagem através de uma rede social, meio em que o mesmo encontrou para reivindicar, diz estar indignado pelo fato de ter postado a denúncia e a mesma ter sido deletada. “Vou compartilhar novamente essa foto. Pois, da última vez, ela foi removida poucos minutos depois”, disse.’

O problema das rampas de acessibilidade serem obstruídas já é um problema diário em Imperatriz, mas o que a população não espera é que os próprios agentes de trânsito comentam esse tipo de Infração. “Eles não querem que mostrem a falta de respeito, vergonha, educação e etc...”.

“Também precisamos ter a liberdade de ir e vir como os demais cidadãos”, é o que diz João Batista Silva Santos, cadeirante, que faz parte do Centro de Assistência Profissionalizante ao Amputado e Deficiente Físico de Imperatriz (Cenapa). Segundo João Batista, a falta de infraestrutura das ruas e em estabelecimentos é um problema enfrentado todos os dias por deficientes físicos em geral.

“Daqueles que teriam que fazer cumprir a lei. Até quando, minha Imperatriz, permitirás incompetentes no poder?”, questiona e desabafa Evandro Fernandes.

domingo, 12 de janeiro de 2014

CAPITALISMO E SUA ESTRATÉGIA DIVISIONISTA

O capitalismo conseguiu assegurar muitos de seus objetivos como sistema econômico e ideológico no decorrer da história da humanidade, seja ao substituir o feudalismo já decadente, seja na divisão da sociedade em classe e o trabalho dos indivíduos (fordismo, toyotismo, etc.). Em seus primórdios conseguiu substituir uma oligarquia de feudos por uma pequena-burguesia de comerciantes e de mestres até os grandes aglomerados financeiros dos dias atuais. Mandel (1981) define assim:

O capitalismo é um modo de produção fundado na divisão da sociedade em duas classes essenciais: a dos proprietários dos meios de produção (terra, matérias-primas, máquinas e instrumentos de trabalho) - sejam eles indivíduos ou sociedades - que compram a força de trabalho para fazer funcionar as suas empresas; a dos proletários, que são obrigados a vender a sua força de trabalho, porque eles não têm acesso direto aos meios de produção ou de subsistência, nem o capital que lhes permita trabalhar por sua própria conta.

Ao passo que a burguesia imperialista caminha para “unidade” do capital, processo que pode possibilitar o controle das nações, que já se encontram dependentes econômica e financeiramente uma das outras, basta observarmos aonde acontece as crises econômicas e quais seus efeitos em outros países, localizados em continentes dos mais distantes.

Nessa perspectiva o capitalismo tem obtido alguns avanços, principalmente com sua propaganda neoliberal, que a nosso ver é uma das mais poderosas ferramentas na luta de classe travada entre burgueses versus operários. Se para Marx (1848) “O capitalismo cria seu próprio coveiro” os burgueses buscam na propaganda e na divisão: do trabalho, das categorias, dos sindicatos o meio de tirar da classe trabalhadora sua consciência, seu reconhecimento como  única classe produtora de riqueza e de sua situação de exploração.

Lendo o texto: “Trabalhadores se revoltam: o grande massacre dos gatos” (Darnton, 1986) um trecho me chamou atenção, não o fato que os trabalhadores descontentes com as condições de trabalho e alimentação numa gráfica da época da França do século XVIII - pré-industrial - ou massacre dos gatos dos arredores da rua Saint Séverin, mas o fato é que naquela época para se conseguir um trabalho era ainda mais difícil, no entanto, nenhum dos operários se submetiam a certos interesses dos patrões como nos mostra a narrativa feita no texto de um estagiário da tipografia, Contat:

Dizem-lhe para jamais trair seus colegas e manter o índice salarial. Se o operário não aceita - um preço (por um serviço) e sai da oficina, ninguém da casa deve fazer aquele serviço por um preço menor. Essas são as leis, entre os operários. A fidelidade e a probidade lhe são recomendadas. Qualquer trabalhador que trai os outros, quando alguma coisa proibida chamada marron (castanha) , está sendo impressa, deve ser ignominiosamente expulso da oficina. Os operários o põem na lista negra, através de cartas circulares enviadas para todas as oficinas de Paris e das províncias... À parte disso, qualquer coisa é permitida: a bebida em excesso é considerada boa qualidade, a galantaria e o deboche feitos juvenis, as dívidas, um sinal de inteligência, a irreligião, sinceridade. Trata-se de território livre e republicano, onde tudo é permitido. Viva como quiser, mas seja um honête homme(homem honesto), nada de hipocrisia. (Darnton,1986, p.119).

Hoje os trabalhadores disputam entre si as vagas de trabalho, nessa disputa não basta oferecer sua força de trabalho (que é igual aos demais trabalhadores de uma categoria), para se “diferenciar” do outro trabalhador ele “aceita” a precarização das condições de trabalho, redução salarial e outros direitos, ou seja, o sentimento de unidade foi quebrado entre eles, e desse rompimento muito se deve creditar ao capitalismo – com sua produção de exercito de trabalhadores de reserva(desempregados) - e sua ideologia neoliberal. O crescimento de um funcionário dentro de uma organização não fica apenas no cumprimento de suas tarefas apenas, os operários são os olhos dos patrões em meios aos seus para certificar que os demais também estejam comprometidos com o lucro do patrão,e, assim, ele vislumbra o reconhecimento dentro da empresa.

Não é incomum encontrarmos em anúncios de vaga de emprego requisito comportamental como: “compromisso com o crescimento rentável e continuo da empresa”, no capitalismo rentabilidade está sempre ligado à redução dos custos de produção para os proprietários dos meios de produção e desse os salários é sempre o primeiro alvo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Direção do PSTU/MA se posiciona frente ao estado de barbárie.

Por PSTU Maranhão

O câncer político instalado há quase meio século nas instituições do Maranhão atingiu um estado insuportável de degeneração que deixa a mostra todos os seus sintomas. As ações das organizações criminosas dos “de baixo” são expressões das da extrema pobreza do nosso povo e das disputas políticas encarniçadas existentes nas organizações criminosas dos “de cima”.  Há farelo político espalhado para tudo enquanto é lado.

A oligarquia Sarney nunca esteve tão desconfortável.  Já não consegue manipular a consciência dos trabalhadores do Maranhão como se manipulam substâncias químicas em laboratórios clandestinos.  As propagandas vinculadas na imprensa da oligarquia são para tentar maquiar o estado pútrido desse grupo. Pouco antes de ser derrubado do poder, o imperador Dom Pedro II usava e abusava de propagandas mentirosas em jornais e revistas da época. Nelas, o mesmo aparecia sempre com o semblante altivo em meio à desgraça do seu reinado, já sem apoio da igreja, dos latifundiários e do exército. No último domingo (05/01) Roseana Sarney deu uma entrevista no jornal O Estado do Maranhão, de propriedade de sua família, procurando pintar em cores alegres a aquarela desbotada do seu decadente governo.  Turismo e futebol figuraram como tema central, enquanto a segurança pública foi tratada como um tema de outro planeta.

72 detentos mortos em Pedrinhas em pouco mais de um ano, quase o dobro dos executados por aplicação da pena morte nos EUA em 2013. Lá foi 39, segundo relatório anual do Centro de Informação da Pena de Morte (DPIC). Em média, um detento está sendo executado por semana no Maranhão. Isso soa entranho para o mundo, mesmo para o mundo capitalista onde prisão nada mais é do que uma instituição política criada para disciplinar o corpo e a vida dos trabalhadores. Sim, deve-se disciplinar, não exterminar, assim pensam os setores mais lúcidos e civilizados da burguesia.  

As exigências da OEA (Organizações dos Estados Americanos) para Roseana Sarney expõem ainda mais quão os órgãos do seu governo estão prestes a ter falências múltiplas. Não é bom para os capitalistas constatar que um estado do país que figura como sétima economia do mundo (o governo Roseana afirma que a média maranhense é superior a nacional) tenha um sistema penal com fortes traços medievais.  Ao serem presos, os detentos não sabem se serão conduzidos para a cela ou para a guilhotina.

 O IDH do Maranhão que figura sempre entre os piores do país está na raiz do problema, mas é dessa raiz que esse grupo se nutre.  Por isso, a oligarquia está sem moral política para combater o crime porque não é possível uma árvore arrancar sua própria raiz.  A cada medida desesperada do seu governo, os criminosos “de baixo” reagem com mais audácia. Ônibus queimados, delegacias metralhadas, inocentes feridos e mortos, Força Nacional impotente, secretário de segurança fraseológico etc. A população está em pânico, mas não solidária ao governo.  A solidariedade é para com as vitimas dos ataques aos coletivos ocorrido no ultimo final de semana em São Luís. 

Ordenar a PM a ocupar um inferno de concreto superlotado, o Complexo Penitenciário de Pedrinhas, que não comporta mais nem púlpito para pregações celestiais foi mais um tiro que Roseana deu na própria cabeça. As organizações de “baixo” mostraram para o Brasil que quem realmente comanda o crime no Maranhão não está do lado de dentro da “muralha”, nem os das organizações “de baixo”, nem os das organizações “de cima”.  

Jogaram presos de facções rivais nos mesmos pavilhões, nas triagens e até nas mesmas celas.  Naturalizaram a corrupção instalada no sistema prisional e até mesmo na Secretaria de Segurança Pública do Maranhão. Deram asas ao crime por que achavam que assim, com os pobres divididos, seria mais fácil controlá-los. Permitiram que o assassino do quilombola Flaviano fosse um arquivo queimado em Pedrinhas.  Esticaram demais a corda podre, desceram ao fundo do poço, e, agora, não conseguem voltar escalando os tijolos limosos.

  O QUE FALTA PARA OLIGARQUIA CAIR?
As esperanças que ainda restam à oligarquia Sarney para continuar no poder são depositadas no mesmo processo que a maior parte da Oposição do Maranhão acredita ser possível utilizar para derrotar essa própria oligarquia, ou seja, as eleições de outubro deste ano. Sobre esse ponto queremos travar o debate.
A principal Oposição ao grupo Sarney se organiza em torno do grupo do ex-deputado Flavio Dino. Esse grupo reúne fortíssimos setores econômicos e empresariais (industriais, agronegócio, latifundiários, etc.) e políticos arquiconservadores como o coronel da cidade de Caxias, Humberto Coutinho, o ex-prefeito de Bacabal e latifundiário Zé Vieira e o deputado e ex-delegado de polícia Raimundo Cutrim, ambos aliados históricos da oligarquia.

Contudo, esse grupo não é simplesmente burguês/oligárquico, ou uma fração burguesa/oligárquica in natura. O PC do B de Flavio Dino atrai para seu campo político um grande número de organizações sociais e sindicais, bem como intelectuais de classe média, além da pequena burguesia maranhense. Nesse caso, a melhor definição para esse grupo é que conforma uma Frente Popular, ou seja, um grupo com um programa claramente burguês, mas com grande apoio popular, tal como ocorreu em 2006 com Jackson Lago.

Nesse caso quem define os rumos políticos desse grupo em seu conjunto não são os que pertencem aos grupos de maior base social (os trabalhadores e suas organizações), mas aqueles possuem a maior base material (a fração burguesa-oligárquica).

Para essa fração, a oligarquia deve ser hiperdesgastada, mas não derrubada nas ruas. Todas as suas fichas são depositadas nas eleições de outubro. A oligarquia sabe disso, e mais, sabe que é esse tipo de Oposição que segura as organizações populares, sindicais e camponesas para que novas jornadas de junho e agosto não se repitam antes de outubro de 2014. Mas essa confiança tem limites.

As jornadas de junho no Maranhão, como em todo o Brasil, ocorreu por fora das organizações tradicionais e traidoras da classe trabalhadora. O grupo Sarney não dará “cheque em branco” às irritações populares com seu governo cambaleante. Prova disso está no cerco militar ao Palácio dos Leões.

A esperança da oligarquia está, portanto, depositada na combinação de algumas medidas de exceção para barrar manifestações de massa e, sobretudo, no viés eleitoreiro dos grupos que se agregam em torno de Flávio Dino. Assim, a decomposição da oligarquia Sarney só não avança para óbito político definitivo porque à quimioterapia oportunista e eleitoreira do grupo de Flavio Dino garante a ela alguma sobrevida.

A NOSSA APOSTA PRINCIPAL É NA MOBILIZAÇÃO PERMANENTE DA CLASSE TRABALHADORA
É notório que o PSTU cresceu nos últimos anos entre os trabalhadores e a juventude do Maranhão. Por mais que a pequena burguesia e a direita tente nos jogar na vala comum de seus partidos, a vanguarda de nossa classe está aprendendo na experiência da luta real que nós somos diferentes, apesar de não sermos infalíveis.

Em todas as frentes que atuamos, sobretudo na CSP CONLUTAS e suas entidades, o nosso partido não mede esforços tocar a luta. Contudo, sabemos que todo partido revolucionário deve encarar a realidade de frente. Não somos uma organização que dirige carro no escuro com faróis apagados.
Somos ainda muito pequenos e sem base social suficiente para impor uma queda à oligarquia Sarney. Essa decisão não depende de nossos desejos e nem muito menos de nossas frases e consignas, mas da realidade objetiva do nosso estado (e essa condição está dada com crise social e política) e da subjetividade da nossa classe (mais ou menos dada,  pois a indignação, mas sem mobilização política ) e de um partido com forte influencia de massa, o que ainda não somos.

Entendemos, porém, que todos esses processos tendem a avançar. A tentativa de relocalização de muitos políticos e grupos econômicos em torno de Flavio Dino atestam um mal estar socioeconômico e político geral em nosso estado.  Grupos burgueses e oligárquicos não dão giros políticos a toa.   

A tentativa de eleger Flavio Dino em detrimento da derrubada do grupo Sarney nas ruas é parte de um projeto que visa apenas readequar em novas bases a dominação de classe em nosso estado.  No que pese as intenções “humanitária” de Flavio Dino, a estrutura fundiária continuará intocada, os grandes grupos econômicos continuarão sugando nossas riquezas e aprofundando a miséria do nosso povo e a violência não cessará.

O grupo de Flavio Dino não terá como apresentar um programa classista para o Maranhão por que sua base material fundamental não está entre os trabalhadores e os camponeses, e isso já ficou bem claro nas eleições de 2010. Em 2014 Flávio Dino estará mais a direita.

Isso tem a ver com o silêncio que mantém em torno da consigna “Fora Roseana Sarney”. De maneira geral a burguesia não ocupa as ruas para derrubar governos burgueses, ainda que sejam governos desgastados e antipatizados pela própria burguesia. Isso só poderá ocorrer mediante a ameaça de tomada de poder pelos trabalhadores. O PSTU também tem candidato para as eleições de 2014, Saulo Arcangeli, mas não vamos subordinar nossas lutas às eleições burguesas.

A nota lançada por Flávio Dino sobre o sobre a crise da oligarquia é, no mínimo, complacente.  Ao invés de convocar população e os movimentos às ruas, Flavio Dino propõe “a constituição de um Gabinete de Crise, com a participação de todas as instituições do sistema de Segurança e de Justiça, juntamente com a sociedade civil (por exemplo: Judiciário, Ministério Público, OAB, SMDDH, Defensoria Pública, Polícias estaduais, Polícia Federal, Guarda Municipal, Forças Armadas)”. Infelizmente setores do PSOL do Maranhão coadunam dessa mesma posição ao defender intervenção federal como uma saída para a crise. É preciso lembrar que foi uma intervenção federal que levou Sarney ao poder em 1965 e que as Forças Armadas são braços dos poderosos e seus governos.

O PSTU acredita que já passou da hora da classe trabalhadora ajustar as contas com o grupo Sarney.  A consigna “Fora Sarney” que ecoou pelo Maranhão em junho e em agosto de 2013 deve ser retomado com mais força e com um programa classista para pôr abaixo esse grupo. Defendemos que os trabalhadores governem a partir da formação de conselhos populares em pólos de todas as microrregião do estado. Para isso é necessário que confiem em suas próprias forças e não esperem outubro chegar, pois  oligarquia está podre, mas não será derrubada pelo vento. 

Fora Roseana Sarney e toda a oligarquia!
Por um governo dos Trabalhadores com formação de conselhos populares no campo e na cidade!
Confisco de todos os bens da oligarquia !
Mais verbas para Educação, Saúde, Moradia e Transporte.
Desmilitarização e unificação da policia
Suspensão de todos os despejos forçados no campo e na cidade!
Reforma agrária sobre o controle dos trabalhadores!
Imediata titulação das terras dos quilombolas

Fonte: blog PSTU/MA